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Saturday, October 27, 2007

Trinitá e Tabaco

Quem sabe o que é bom, genuíno, associa-o forçosamente à simplicidade. Ao frugal, às "coisas simples da vida". Passamos dois terços da vida a construir-nos, a ganhar recursos para vencer. É uma mais valia, mas é também um afastamento. Derivamos sem noção disso em direcção a algo que pode até ser o sucesso, mas que é definitivamente para longe de nós próprios e de quem nos admirava como nós éramos. Quem pode negar que depois de um dia de trabalho no nosso bem-sucedido emprego, dentro das nossas bem sucedidas roupas, voltamos muitas vezes para a nossa perdida companhia? Regressamos para a nossa própria bem-sucedida solidão, que não se resolve necessariamente por estarmos acompanhados. Sentimos falta de nós próprios e de quem connosco gostava de estar apenas por que sim e não porque aquele era o lugar que lhe estava destinado socialmente, ou por poder ter algo a ganhar dali. Faz-me falta o café, à portuguesa, de horas e horas de bica e copo de água, do tomar café em geral, mesmo que se beba apenas uma água das Pedras. A conversa a que nada obriga, do tudo e do nada do desporto e dos outros, do jornal que alguém trouxe e faz rodar, da partilha do cinzeiro, da gargalhada que sobe por cima do resto do burburinho alto do café. Da despedida à porta já na rua, da separação e do último amigo que, por viver na mesma direcção que nós, nos acompanha por mais uns quarteirões de comentário ao falado um pouco antes. O falar bem. O falar mal. O concordar com o que foi dito antes ou o acrescentar de algo mais, que intimamente pode ser partilhado com este amigo específico... Dando-nos extra cumplicidade para o café de amanhã. Sem tempo contado. Sem desistências e abstinências porque: "já lá fui ontem" Deixem-me ressuscitar o café. Não sou pior por tê-lo. Mas sou menos na sua falta.

2 comments:

polegar said...

café, carioca de limão, copo de leite, sumo de maçã.

dêem-me a língua afinada, o sorriso, a colher a girar distraída na chávena, o olhar cruzado por meia dúzia de nadas, fixo depois porque algo mais intenso pairou. dêem-me o dedo a apanhar migalhas do tampo da mesa, a apanhar calor humano do lado de lá, o sabor do açúcar em pó misturado com o das palavras. dêem-me o tinir da loiça em pano de fundo, dêem-me a presença e as pessoas. são elas que me dizem que existo. que faço falta. que valho a pena...

como te compreendo, meu velho... :)

Filipa said...

Ai que saudades desses cafés, dessas conversas da despreocupação e alegria próprias da idade.
Que saudades...

Bjs.